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Uma época estranha…

Hoje eu falei pra minha filha de quase três meses: “Bebel, você vai viver sua infância em uma época muito estranha”… Eu estava assistindo Cartoon Network enquanto ela mamava e estava passando a propaganda de um serviço de informações sobre personagens de desenho pelo celular. Basta a criança digitar alguns números e pronto, ela passa a receber as informações em seu telefone. E o melhor, seus pais nem precisam participar dessa decisão!

Mais cedo eu havia recebido em meu e-mail as informações sobre uma conferência que acontecerá em junho, o Kid & Tweens Power Brasil. Como estudei o tema consumo na infância, acho que em algum momento me cadastrei para receber informações sobre esse evento, que reúne a nata do marketing infantil.

Entre os destaques do folder está o seguinte: “Tendências de consumo de crianças e suas famílias: atingir crianças, adolescentes e toda a famíia é o grande desafio para os profissionais de marketing. Mantê-los engajados é ainda mais difícil! Venha discutir novas estratégias e garanta o sucesso de sua empresa”.

Eu trabalho em uma grande empresa e acho legítimo pensar em estratégias para que seus negócios sejam um sucesso. Empresas inovadoras e lucrativas são boas para a economia, geram empregos e produzem bens que nos proporcionam conforto. Mas é inconcebível para mim que uma empresa garanta seu lucro às custas de estratégias que manipulam a relação entre pais e filhos.

Uma das palestras, por exemplo, tem o seguinte tema: “Stakeholders mirins: a participação da criança na formação da marca e reputação da empresa”. Não posso ser ingênua ao ponto de achar que as crianças não conhecem e emitem suas opiniões sobre marcas e produtos. Mas não consigo achar correto que uma empresa se aproveite da capacidade de uma criança influenciar seus pais com a finalidade única de obter maiores lucros.

Não, eu não estou louca. Não, eu não estou sendo radical. Pessoas que pesquisam, criam e colocam em prática estratégias de marketing como essas é que perderam a noção de até onde se deve ir para ganhar mais dinheiro.

Nessa história, algumas coisas precisam ser respeitadas e preservadas. E uma delas sem dúvida é a criança.

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Parece bacana a iniciativa do Akatu nas escolas públicas. Eles estão capacitando professores de escolas públicas para trabalhar os temas consumo consciente e sustentabilidade em sala de aula. Além de cursos presenciais eles participam elaborando planos de aulas adequados à sua realidade e ganham acesso a uma plataforma de ensino à distância. Essa experiência servirá de modelo para a extensão da formação a todas as escolas públicas do Brasil. Mais informações aqui!

Honrar a criança

Pendurei no quarto da minha filha uma foto do Sebastião Salgado que tenho há muitos anos, em que aparecem dezenas de bebês num pátio da Febem, abandonadas ainda bem pequenas por seus pais.

Algumas vezes, quando estou com ela no colo, acalmando seu choro e aquecendo seu pequeno corpo, penso nas crianças sozinhas ou mal cuidadas. Quem ampara esses bebês quando estão sofrendo as dores de uma cólica? Quem segura esses bebês no colo para acalmá-los antes de dormir? Isso sem falar em cuidados mais básicos como a proteção contra a fome, as doenças e a violência.

Agora acabo de ler a seguinte afirmação: “pesquisas recentes em neurobiologia evidenciam que o desenvolvimento das estruturas do cérebro responsáveis pelo funcionamento social e emocional no decorrer da vida estão atreladas à qualidade do vínculo entre a criança e o provedor de cuidados. Vínculos seguros minimizam a frustração, a agressividade e permitem à criança superar contrariedades com maior rapidez. Em contrapartida, vínculos esquivos, ambivalentes ou desorganizados promovem sentimentos de inquietação e agressividade, e comprometem a habilidade da criança de moderar as emoções e lidar com o estresse”.

O trecho está no livro “Honrar a Criança: como transformar este mundo”, que acabei de comprar. Já no início encontrei algumas estatísticas muito tristes extraídas do relatório “Infância Ameaçada”, realizado pela Unicef em 2004: “mais de 1 bilhão de crianças sofrem desnutrição, doenças passíveis de prevenção e/ou tratamento, vivem em acampamentos para refugiados, são objeto de violência direta ou vítimas do tráfico sexual. A maioria se encontra em países pobres, contudo, crianças de nações ricas também estão ameaçadas, seja por maus tratos domésticos, obesidade, doenças mentais ou desorganização familiar e comunitária”.

Mais algumas estatísticas: no Brasil, 50 mil crianças morrem por ano por causa de diarréia e 7% sofrem desnutrição crônica. Ao mesmo tempo, 15% sofrem obesidade ou sobrepeso, revelando a péssima qualidade da alimentação que estamos provendo às nossas crianças.

Todo mundo sabe que esses problemas existem, por mais chocantes que sejam. Mas como deixamos isso acontecer?

Enlouquecimento global

Ainda não entendeu direito essa história de mudanças climáticas? Vale a pena ler o texto de Thomas Friedman para o NYT e publicado no Planeta Sustentável: o jornalista americano Thomas Friedman diz que, entre todos os absurdos que regularmente assolam a política americana, o mais disparatado é o que se refere ao inverno rigoroso que assola Washington como prova de que as mudanças climáticas não passam de lorota.

Quando o Loyd e eu decidimos nos casar, visitamos muitos apartamentos, e a existência ou não de um pátio nunca foi um item importante em nossas discussões. No final, com o dinheiro que tínhamos e a maluquice que está o preço dos imóveis em São Paulo, escolhemos um apartamento em um predinho pequeno, daqueles sem porteiro e sem elevador. Foi perfeito enquanto os habitantes eram apenas nós dois, pois passamos a fazer tudo a pé e curtimos muito caminhar pelo bairro. Mas agora que a Bebel chegou, tudo o que eu queria era ter comprado um daqueles empreendimentos enormes pra lá da marginal, com piscina, quadra e brinquedoteca, sabe?

Sempre que via anúncios desse tipo de lançamento em São Paulo eu achava muito triste, pois não gosto da ideia de trancafiar crianças em um condomínio, sem dar a elas o gosto de aproveitar o espaço público. Mas agora percebo que triste mesmo é viver em uma cidade onde não há espaço público decente e estruturado para ser curtido pelas crianças.

Eu moro ao lado de duas praças lindas, arborizadas e super bem cuidadas – sou uma privilegiada, veja bem. Mas as calçadas são tão esburacadas, o barulho do trânsito é tão grande e o comportamento dos motoristas enlouquecidos é tão perigoso que eu simplesmente não consigo sair sozinha para passear tranquilamente com a minha Bebel. A última vez que tentei fazer isso foi muito estressante e acho que até ela ficar maiorzinha não saio mais sozinha com ela não…

Eu já nem me lembro direito de onde surgiu a ideia de chamar nosso blog de Quintal da Vó. Mas seja lá qual foi a motivação, acho que foi uma ideia muito inspirada, afinal, para uma criança, muito melhor que ter um patio é ter um quintal. E se for um quintal da avó, onde os primos se encontram para brincar, melhor ainda, não é?

Infelizmente, creio que não conseguiremos sair tão cedo de nosso predinho. Enquanto isso, ainda bem que a Bebel pode contar com os quintais e pátios das avós, que além de a receberem de “portões abertos” estão sempre prontas para dar  aquele colinho quentinho e experiente que só elas têm.

Se, como bem mostra o teste da pegada ecológica, o planeta não suporta o estilo de vida que levamos nas grandes cidades, nossas crianças terão que aprender a viver de um jeito diferente, baseados em valores diferentes, certo? Terão que aprender a lidar com recursos naturais escassos, que repensar a relação entre o espaço urbano e o meio ambiente e, principalmente, terão que desconstruir a idéia de que sentimentos como felicidade, bem-estar, amizade e amor andam lado a lado com o dinheiro e o consumo.

E para termos crianças que viverão segundo novas ideias e novos valores precisamos ter adultos que apresentarão a elas novas ideias e novos valores, certo? Isso pode e já tem sido feito por meio de livros, filmes, museus, na escola e meios de comunicação, certo? Mas e a informação que a criança recebe em casa, por meio da educação e do exemplo dos pais?

Bem, aí é que a coisa complica, pois é quando nós, adultos, nos deparamos com nossas próprias contradições… É aí que precisamos parar de contar com a ajuda externa e rever o que nós temos feito para o nascimento de uma nova sociedade. Afinal, de que adianta eu apresentar minha filha a livros incríveis como esse da Cristina Von, que a Rê comentou em seu último post, se meu armário está abarrotado de roupas, bolsas e sapatos que quase nunca uso?

Este post só tem perguntas pois para essas questões eu realmente não tenho resposta. Tenho pensado nisso desde que comecei a me envolver com a ideia do desenvolvimento sustentável e a me deparar com o grande desafio de meus mudar hábitos e estilo de vida.

Como eu, que sinto uma felicidade imensa cada vez que compro uma roupinha nova, que amo tomar um longo banho quentinho todos os dias, que adoro meu carro, vou educar minha filha de acordo com valores diferentes dos que eu fui educada?

Não tem aquela frase batida do Ghandi que diz que “temos que ser a mudança que queremos ver no mundo”? Pois é…  no momento me sinto como aquelas empresas, que fazem propagandas falando em sustentabilidade sem sequer adotar uma política decente de respeito aos direitos de seus funcionários… Fazer é sempre mais difícil que falar, não é?

Coisas da Cris

Que saudade de escrever neste Quintal…

Essa é para os pais e educadores que se preocupam com a educação financeira de suas crianças e da relação delas com o consumo. Aliás, Mari e eu adoramos tratar deste assunto aqui.

A Cristina Von – escritora que participou do videochat do ano passado – acabou de lançar um livrinho lindo chamado “O Consumo”. Nele, a autora conta a história de dois meninos que têm vidas muito parecidas, mas com consciências muito diferentes, e vai mostrando aos leitores o reflexo das escolhas da vida deles.

O enredo facilita a vida dos adultos porque, com ele, conseguimos explicar aos pequenos – com exemplos práticos – o que perde quem é consumista. E que o consumo, quando desnecessário, pode ser um peso, e não uma alegria.

A editora dela (a Callis) aproveitou para relançar “O Dinheiro”, que é um livrinho que ela já tinha e que vale muito a pena. Tem até porquinho para montar.

Beijos e até.